Hoje é o primeiro dia de aula dos
calouros da Medicina! E é o quarto ano que sou a responsável por receber a
moçada com minha aula introdutória à Histologia, que nunca passa da primeira
das cinco horas que tenho com eles às segundas-feiras. Enquanto tento dizer a
que vim e conhecer um pouco de cada um, meus x-alunos, x-calouros (agora no 2º,
3º e 4º ano) aterrorizam com o barulho da maquininha de raspar o cabelo, socos
na porta e aquela gritaria deliciosa que faz liberar um monte de hormônio da
juventude (Até nessa “jovem” senhora profesora)!
(As fotos da minha nova turma vou postar aqui assim que conseguir transferir, mas pra quem tem meu face, estão lá em tempo real)
A tensão aumenta e eles invadem a
sala (tudo combinado antes da aula) e com a promessa de que ninguém vai sair triste
com a brincadeira. Nem sempre dá certo, mas até hoje só tive bons meninos!
Nessa hora eu saio de cena.
Esse ano eu resolvi ficar por perto
e dar boas risadas junto com eles. Hoje é dia de celebrar a vida e todas as
vitórias que 2012 nos entregou; nada de mãos beijadas, com muita luta e
sacrifício e dor, muita dor.
Hoje quero exorcizar as
lembranças do ano passado e começar o tão esperado ano novo. Acho que só agora
a gente vai entrar de verdade com os dois pés direito!
Pra isso vou transcrever aqui o
que aconteceu exatamente no primeiro dia de aula da minha turma de 2011. A
lembrança é muito ruim, mas assim que esse dia for documentado aqui, vai ser substituído
pelas fotos barulhentas e cheias de vida que 2012 trouxe pra mim!
Era uma segunda, dia 7 de
fevereiro e não 6. Deixei a minha riqueza no colégio para o seu emocionante 1o
dia de aula do 6º ano. As crianças fervendo no portão esperando pra encontrá-la
(ela é a mais querida, não tem jeito!). Fui para a faculdade e tudo aconteceu
exatamente como eu descrevi no inicio do texto, exceto por eu não ter ficado
pra curtir com os alunos. Tinha conseguido uma consulta ao dentista para as
10:30h e fui voando pra lá. Sentei na sala de espera, liguei o net book e é
claro, entrei no facebook (Ainda não tinha celular conectado à internet).
Dei uma olhadela e de cara eu li
no mural de algum amigo: ”Você viu o que aconteceu com o Pablo¿”. Meu coração
foi até a boca e caiu no estomago. Mais nenhuma informação! Liguei para as
irmãs dele, mas a ligação de Rondônia não era concluída. Liguei para o trabalho
dele e pedi o número do telefone do seu melhor amigo. Consegui falar com ele,
que tentou me acalmar dizendo que estava tudo bem. Que a UTI era só preventiva
e que ele havia reagido à um assalto e apanhado, mas que não precisava ir até
São Paulo. Ninguém tinha contato com a família, que ainda não sabia o que tinha
acontecido. Passei os números para o amigo e em seguida consegui falar com um
dos cunhados no celular, pra que pudessem realmente ver o que tinha acontecido.
Enquanto isso, o dentista já tinha ido e vindo umas dez vezes me chamar... Num
intervalo me falou: _Georgia¿ Está tudo bem¿ É o pai da sua filha¿ _Sim,
preciso ir pra São Paulo! Vamos marcar para sexta-feira! _ Mas precisa sair
correndo assim¿_ Como se fosse possível sair correndo esses 3 mil kilometros!
Liguei pra minha mãe e pedi pra
orar por ele e tentar saber noticias! Enquanto isso liguei na agencia de
viagens e pedi passagem pra ontem pra voltar dentro de 4 dias. Só consegui e
por muita sorte para 12h do dia seguinte. Em São Paulo já era 14h da tarde e
minha mãe já tinha chegado ao hospital e entrado na UTI, com a ajuda de uma
pessoa especial que hoje considero uma amiga. A família ainda não tinha chegado
lá, mas ela me disse pra ficar calma e que o Pá estava conversando, que ia
ficar bem.
Falei umas três vezes até o dia
seguinte com o amigo do Pá, que sempre me tranqüilizava. Pensava que fosse
chegar ao hospital e dar uma bronca no machão que reagiu ao assalto. Ver se precisava
de algo e voltar para o meu trabalho. Diga-se de passagem, fazia apenas duas
semanas que eu tinha voltada das férias de um mês em São Paulo e uns dez leões me
esperavam aqui na Amazônia. Comuniquei que estaria ausente ao meu chefe, mas
que voltaria no final da semana. (ele segurou a onda, mas sei que não foi
fácil).
Como que eu pego a Ana na Escola,
explodindo de alegria, cheia de novidades pra contar¿¿¿
Mas assim foi! Depois de
almoçarmos e ela me contar todas as fofocas infantis eu disse a ela que meu pai
havia infartado (novamente) e que íamos passar quatro dias em São Paulo. Ela
ficou furiosa!!! Quem a conhece sabe como é apegada à escola e seus deveres. E
eu não podia gritar, nem falar a verdade. Só ouvir quilos de lamentações e
jurar que não ia passar de quatro dias. Fizemos uma malinha e lá fomos nós. Eu
completamente perdida! E ela compadecida da minha dor pelo meu pai.
Meu irmão foi nos buscar no
aeroporto, me deixou no hospital de taxi e foi pra casa da minha mãe com a
pequena. Eu me travesti de aluna da Nefro (embora eu seja ex-aluna e todos me
conheçam por lá), com avental, crachá e salto alto e pra conseguir passar a
barreira da UTI, afinal já eram 21h e não era permitido visitas, falei que era
a esposa de Rondônia. (Fui julgada por isso, mas nem me justifico, valeu cada
minuto ali dentro nos próximos 30 dias que passamos em São Paulo).
Quando o vi passei muito mal,
quase desmaiei (assim é quando alguém dos meus está na posição de paciente),
mesmo sendo totalmente familiarizada com o ambiente e sem qualquer problema que
envolva hospital, sangue, doença.
Ele estava mesmo falando e disse
que não era pra eu ter ido, que era desnecessário! Mas ficou contente e pediu
pra levar a pequena na manhã seguinte. Mas não foi o que senti naqueles olhos e
sai dali desesperada. Enquanto me falavam que ele estava bem, eu via o pior! E meu
desespero assustou algumas pessoas.
Eu sabia que a Ana tinha que ver
o pai no dia seguinte, mas como falar pra ela meia noite que no dia seguinte
íamos ver o papai¿¿¿ Pasmem! Eu não me lembro! Sei que fomos e ela também passou
mal, mas prometemos voltar no dia seguinte com milk shake, pijamas novos,
travesseiro e fronha macios e tudo mais...
No dia seguinte o pai teve uma
parada cardíaca, e depois mais duas e nosso mundo desabou!
Mas em nenhum momento eu
desanimei diante dele ou da pequena. Meu fundo do poço era no chuveiro ou no
travesseiro. Consegui ficar dentro da UTI, segurando sua mão por 30 dias! Só
saía na hora das visitas e sempre cheia de esperança. O coração parecia não
bater mais, mas obedecia as vozes dos anjos. A mente só sabia rezar e o corpo não
sabia mais como era ficar sentado, mas com sorriso no rosto de certeza de que
valia a pena.
A história toda vocês sabem...
Hoje faz um ano que o bem venceu
o mal! E agora que já chorei todas as lágrimas dessa lembrança, vamos almoçar
bem felizes, a pequena vai contar como foi a volta às aulas, eu vou trabalhar
muito e o papai vai comemorar a vida nova, retomando um dia de cada vez, cada
vez melhor. VIVAAAAAAAAAA!
Um comentário:
Esqueci de falar que depois de um ano, na próxima quarta eu volto ao dentista. rsrs
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