segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

E o tempo não para!


Hoje é o primeiro dia de aula dos calouros da Medicina! E é o quarto ano que sou a responsável por receber a moçada com minha aula introdutória à Histologia, que nunca passa da primeira das cinco horas que tenho com eles às segundas-feiras. Enquanto tento dizer a que vim e conhecer um pouco de cada um, meus x-alunos, x-calouros (agora no 2º, 3º e 4º ano) aterrorizam com o barulho da maquininha de raspar o cabelo, socos na porta e aquela gritaria deliciosa que faz liberar um monte de hormônio da juventude (Até nessa “jovem” senhora profesora)!
(As fotos da minha nova turma vou postar aqui assim que conseguir transferir, mas pra quem tem meu face, estão lá em tempo real)


A tensão aumenta e eles invadem a sala (tudo combinado antes da aula) e com a promessa de que ninguém vai sair triste com a brincadeira. Nem sempre dá certo, mas até hoje só tive bons meninos! Nessa hora eu saio de cena.


Esse ano eu resolvi ficar por perto e dar boas risadas junto com eles. Hoje é dia de celebrar a vida e todas as vitórias que 2012 nos entregou; nada de mãos beijadas, com muita luta e sacrifício e dor, muita dor.


Hoje quero exorcizar as lembranças do ano passado e começar o tão esperado ano novo. Acho que só agora a gente vai entrar de verdade com os dois pés direito!


Pra isso vou transcrever aqui o que aconteceu exatamente no primeiro dia de aula da minha turma de 2011. A lembrança é muito ruim, mas assim que esse dia for documentado aqui, vai ser substituído pelas fotos barulhentas e cheias de vida que 2012 trouxe pra mim!


Era uma segunda, dia 7 de fevereiro e não 6. Deixei a minha riqueza no colégio para o seu emocionante 1o dia de aula do 6º ano. As crianças fervendo no portão esperando pra encontrá-la (ela é a mais querida, não tem jeito!). Fui para a faculdade e tudo aconteceu exatamente como eu descrevi no inicio do texto, exceto por eu não ter ficado pra curtir com os alunos. Tinha conseguido uma consulta ao dentista para as 10:30h e fui voando pra lá. Sentei na sala de espera, liguei o net book e é claro, entrei no facebook (Ainda não tinha celular conectado à internet).


Dei uma olhadela e de cara eu li no mural de algum amigo: ”Você viu o que aconteceu com o Pablo¿”. Meu coração foi até a boca e caiu no estomago. Mais nenhuma informação! Liguei para as irmãs dele, mas a ligação de Rondônia não era concluída. Liguei para o trabalho dele e pedi o número do telefone do seu melhor amigo. Consegui falar com ele, que tentou me acalmar dizendo que estava tudo bem. Que a UTI era só preventiva e que ele havia reagido à um assalto e apanhado, mas que não precisava ir até São Paulo. Ninguém tinha contato com a família, que ainda não sabia o que tinha acontecido. Passei os números para o amigo e em seguida consegui falar com um dos cunhados no celular, pra que pudessem realmente ver o que tinha acontecido. Enquanto isso, o dentista já tinha ido e vindo umas dez vezes me chamar... Num intervalo me falou: _Georgia¿ Está tudo bem¿ É o pai da sua filha¿ _Sim, preciso ir pra São Paulo! Vamos marcar para sexta-feira! _ Mas precisa sair correndo assim¿_ Como se fosse possível sair correndo esses 3 mil kilometros!


Liguei pra minha mãe e pedi pra orar por ele e tentar saber noticias! Enquanto isso liguei na agencia de viagens e pedi passagem pra ontem pra voltar dentro de 4 dias. Só consegui e por muita sorte para 12h do dia seguinte. Em São Paulo já era 14h da tarde e minha mãe já tinha chegado ao hospital e entrado na UTI, com a ajuda de uma pessoa especial que hoje considero uma amiga. A família ainda não tinha chegado lá, mas ela me disse pra ficar calma e que o Pá estava conversando, que ia ficar bem.


Falei umas três vezes até o dia seguinte com o amigo do Pá, que sempre me tranqüilizava. Pensava que fosse chegar ao hospital e dar uma bronca no machão que reagiu ao assalto. Ver se precisava de algo e voltar para o meu trabalho. Diga-se de passagem, fazia apenas duas semanas que eu tinha voltada das férias de um mês em São Paulo e uns dez leões me esperavam aqui na Amazônia. Comuniquei que estaria ausente ao meu chefe, mas que voltaria no final da semana. (ele segurou a onda, mas sei que não foi fácil).


Como que eu pego a Ana na Escola, explodindo de alegria, cheia de novidades pra contar¿¿¿


Mas assim foi! Depois de almoçarmos e ela me contar todas as fofocas infantis eu disse a ela que meu pai havia infartado (novamente) e que íamos passar quatro dias em São Paulo. Ela ficou furiosa!!! Quem a conhece sabe como é apegada à escola e seus deveres. E eu não podia gritar, nem falar a verdade. Só ouvir quilos de lamentações e jurar que não ia passar de quatro dias. Fizemos uma malinha e lá fomos nós. Eu completamente perdida! E ela compadecida da minha dor pelo meu pai.


Meu irmão foi nos buscar no aeroporto, me deixou no hospital de taxi e foi pra casa da minha mãe com a pequena. Eu me travesti de aluna da Nefro (embora eu seja ex-aluna e todos me conheçam por lá), com avental, crachá e salto alto e pra conseguir passar a barreira da UTI, afinal já eram 21h e não era permitido visitas, falei que era a esposa de Rondônia. (Fui julgada por isso, mas nem me justifico, valeu cada minuto ali dentro nos próximos 30 dias que passamos em São Paulo).


Quando o vi passei muito mal, quase desmaiei (assim é quando alguém dos meus está na posição de paciente), mesmo sendo totalmente familiarizada com o ambiente e sem qualquer problema que envolva hospital, sangue, doença.


Ele estava mesmo falando e disse que não era pra eu ter ido, que era desnecessário! Mas ficou contente e pediu pra levar a pequena na manhã seguinte. Mas não foi o que senti naqueles olhos e sai dali desesperada. Enquanto me falavam que ele estava bem, eu via o pior! E meu desespero assustou algumas pessoas.


Eu sabia que a Ana tinha que ver o pai no dia seguinte, mas como falar pra ela meia noite que no dia seguinte íamos ver o papai¿¿¿ Pasmem! Eu não me lembro! Sei que fomos e ela também passou mal, mas prometemos voltar no dia seguinte com milk shake, pijamas novos, travesseiro e fronha macios e tudo mais...


No dia seguinte o pai teve uma parada cardíaca, e depois mais duas e nosso mundo desabou!


Mas em nenhum momento eu desanimei diante dele ou da pequena. Meu fundo do poço era no chuveiro ou no travesseiro. Consegui ficar dentro da UTI, segurando sua mão por 30 dias! Só saía na hora das visitas e sempre cheia de esperança. O coração parecia não bater mais, mas obedecia as vozes dos anjos. A mente só sabia rezar e o corpo não sabia mais como era ficar sentado, mas com sorriso no rosto de certeza de que valia a pena.


A história toda vocês sabem...


Hoje faz um ano que o bem venceu o mal! E agora que já chorei todas as lágrimas dessa lembrança, vamos almoçar bem felizes, a pequena vai contar como foi a volta às aulas, eu vou trabalhar muito e o papai vai comemorar a vida nova, retomando um dia de cada vez, cada vez melhor. VIVAAAAAAAAAA!









Um comentário:

Georgia disse...

Esqueci de falar que depois de um ano, na próxima quarta eu volto ao dentista. rsrs